Jornalista. Revisora de livros. Poeta. Mãe. Amante de gatos. Batuqueira de maracatu. Viciada em filmes e livros. Acredito na humanidade, apesar dos pesares.
Quinta-feira teve o encerramento do semestre letivo da Escola Municipal de Arte João Pernambuco, com apresentação de diversos grupos, incluindo minha turma de canto coral. Teve fogueira e comidas juninas. Pena que o professor Marcos Jardim anunciou a aposentadoria dele, mas prometeu continuar informalmente com nossa turma até o final do ano.
No sábado comemoramos o aniversário do meu mano Jácio, com almoço em família no restaurante localizado na sede do Sport Clube do Recife.
A noite do sábado foi de alegria total, com o arraial do Maracatu Real da Várzea, no coreto da Praça da Várzea, quando comemoramos os aniversariantes do mês. Teve muita comida junina (eu levei pamonhas), e depois do ensaio dançamos com os grupos Forró da Vontade e Flor de Mulungu (as meninas arrasando no Coco). Como eu passei o São João isolada, gripada, foi a minha vez de me divertir, dancei pra valer, forró, coco e quadrilha improvisada. Valeu demais.
Acompanhando vários jogos da Copa do Mundo. Foi eletrizante a disputa do Brasil com o Japão: 2 a 1, de virada, com vitória do Brasil no finalzinho da prorrogação. E duas grandes seleções europeias, Alemanha e Holanda, caindo nos pênaltis diante de Paraguai e Marrocos, respectivamente. Os goleiros estão sendo as grandes atrações desta Copa.
Rejeitei o contrato da Editora Urutau, que aceitou publicar meu primeiro livro de poesia. Não valia a pena!
Eu era adolescente. O trajeto de ônibus, entre minha casa no subúrbio e a escola, no centro do Recife, tinha um atrativo especial: passar em frente a um dos mais belos casarões que já vi, na esquina das ruas Manoel Borba com Dom Bosco, no bairro da Boa Vista. Meio decadente, algo abandonado, mas ainda imponente. Não sabia a quem pertencia. Eu sempre dava um jeito de apreciar o casarão, e minha imaginação se acendia com histórias românticas de antigas sinhazinhas em seus namoros escondidos, amores contrariados, casamentos arranjados, fugas espetaculares... quanto amor e sofrimento devem ter tido como cenário aqueles jardins, que certamente foram bem cuidados e agora estavam tomados por uma vegetação caótica. Outras vezes parecia-me ver a casa iluminada em dias de festa, os convidados apeando das carruagens ou dos primeiros automóveis que circularam na cidade – ricos, belos, felizes, as silhuetas entrevistas através das grandes janelas. Como eu queria ser um deles!
Um dia, um dos mais tristes da minha jovem vida, o trajeto para a escola me colocou diante de uma cena que não pude mais esquecer: o casarão jazia em escombros espalhados pelo antigo jardim. Notícias nos jornais diziam que ali seria construído um complexo ultramoderno de apartamentos, era o progresso etc e tal. Em alguns meses surgiu um monstrengo de muitos andares e extremo mau gosto no lugar do belo casarão. Daí em diante o trajeto para a escola perdeu todo encanto.
Foi a primeira perda que tive em relação ao Recife, onde outros belos casarões sistematicamente têm sido substituídos por prédios assépticos, estreitos, sem alma... vidas encarapitadas verticalmente, dominadas pela pressa, o consumo, a tecnologia, a ideia de progresso e modernidade... Não há mais lugar para a mansidão daqueles velhos jardins. Depois, já adulta, perdi a Casa Navio, que ficava em Boa Viagem, à beira mar, e era uma referência: “a gente se encontra em frente à Casa Navio”; “é logo ali, depois da Casa Navio”... as coisas sempre ficavam antes ou depois da Casa Navio. Até que a derrubaram, assim como derrubaram o Castelinho e o edifício Aquarius, também em Boa Viagem, este último um prédio em estilo art nouveu, que até inspirou um filme...Os casarões que sobreviveram foram transformados em pontos comerciais.
Ainda mais triste foi constatar que o poder público, que deveria preservar nossa história cultural e arquitetônica, foi responsável pela derrubada de igrejas, pontes, pórticos, prédios coloniais em geral para abrir avenidas...tudo em nome de uma modernidade sem alma, feita de concreto e aço, incapaz de acender a imaginação de algum adolescente, muito menos a minha que tenho a nostalgia de um Recife perdido no tempo e continuo evitando olhar para os monstrengos que foram dando lugar aos belos casarões da minha infância.